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As maçãs envenenadas que assustaram Bolsonaro

Os jornalistas foram os primeiros alvos na tomada de posse do novo presidente brasileiro.

No primeiro discurso como presidente do Brasil, Jair Bolsonaro voltou a reafirmar a vontade de cumprir uma das mais polémicas promessas de campanha: a de dar mais meios aos brasileiros para se defenderem, ou seja, a liberalização do uso de armas. Ao mesmo tempo que o fazia, os profissionais que cobriam o evento eram forçados pelos agentes de segurança a trincarem as maçãs e outras peças de fruta que traziam consigo. A justificação? O medo de que poderiam estar contaminadas com veneno ou até a possibilidade de ocultarem facas e outras armas.

O primeiro dia de 2019 no Brasil ficou marcado pela tomada de posse do novo presidente. Em Brasília, milhares de pessoas juntaram-se para ver e ouvir as primeiras palavras de Bolsonaro. Se no palanque e nas ruas tudo correu conforme esperado, nos locais reservados à imprensa nem tudo foi pacífico. Além das dentadas, os jornalistas tiveram de cortar as peças de fruta para mostrar à polícia que não tinham nada perigoso lá escondido. Perante esta obrigação e sem quaisquer tipo de facas à mão, os alimentos acabaram invariavelmente no caixote do lixo, conforme revelou no Twitter Afonso Benites, repórter que cobriu o evento para o espanhol “El País”

O plano de segurança nunca antes visto em tomadas de posse do governo brasileiro – e que incluiu milhares de militares, atiradores furtivos posicionados por toda a cidade e até especialistas em armas químicas – foi justificado pelos acontecimentos de 6 de setembro, dia em que Bolsonaro sofreu uma facada no abdómen durante um comício nas ruas de Juiz de Fora, em Minas Gerais.

As medidas exigentes de revista da imprensa foram sendo reveladas pelos próprios jornalistas durante o dia de festa em Brasília, que se mostraram surpreendidos com os pedidos das forças de segurança.

Surpreendido ficou também um coronel do Gabinete de Segurança Institucional que, citado pela revista “Piauí”, revelou ter estranhado a mudança de procedimentos, até porque tudo poderia ter sido feito apenas com recurso ao scanner de raio-X, embora admita que o Brasil deve apostar em operações mais rigorosas de segurança “como acontece noutros países”

À jornalista da “Folha” Anna Virginia Balloussier, os seguranças presentes justificaram a proibição das maçãs porque “poderiam ser arremessadas ao presidente Bolsonaro”.

A grande maioria dos jornalistas destacados para cobrir o evento trazia comida consigo, muito por culpa das novas e restritivas medidas de segurança. Ao contrário das tomadas de posse dos últimos presidentes, nas quais os repórteres gozavam de liberdade de movimentos em toda a zona, a posse de Bolsonaro ficou marcada por uma nova abordagem. As equipas da comunicação social seriam levados de autocarro pelas força de segurança às 7 horas da manhã, apesar da posse estar agendada apenas para as 15 horas.

Só desta forma poderiam ter acesso às zonas vedadas e reservadas à imprensa que se dividiam entre três locais: o Congresso e os Palácios do Planalto e do Itamaraty. O regresso nos mesmos autocarros estava agendado para as 17 horas.

No caminho até ao Planalto, os responsáveis pela segurança foram deixando avisos mais ou menos intimidatórios. “Não tentem subir na Esplanada. Não tentem passar de uma área à outra. E, mais importante, não tentem pular uma cerca.” “A gente tem que avisar, porque depois alguém toma um tiro”, terá dito uma das assessoras, citada pela “Folha”.

Entre o material de trabalho carregavam pequenos lanches para aguentar durante o dia, já que apenas no Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o Itamaraty, foi disponibilizada comida à imprensa.

As maçãs envenenadas que assustaram Bolsonaro
Milhares de militares ocuparam as ruas de Brasília

No Congresso, por exemplo, segundo ordens da segurança, os jornalistas só poderiam comer dentro das casas de banho. Sem cadeiras e apenas com uma casa de banho disponível para centenas de jornalistas, até a máquina de café estava fora de limites. “Não é para servir nada à imprensa”, terá comandado um dos seguranças às empregadas.

No Palácio do Planalto as restrições foram ainda mais duras: não havia água, comida e os jornalistas foram forçados a sentar-se no chão em salas subterrâneas enquanto aguardavam o início da cerimónia.

De acordo com o “Estadão”, quatro jornalistas de meios de comunicação estrangeiros recusaram trabalhar nestas condições e abandonaram a cerimónia ainda antes da tomada de Posse.

Às reações e protestos dos jornalistas seguiu-se a da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, que protestou contra o “tratamento antidemocrático aos profissionais que estão lá para levar ao público o registo histórico deste momento”, e acusou o governo de restringir o trabalho e de ignorar a “obrigação nacional de ser transparente”.