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As lições da gripe espanhola em tempos de coronavírus

Em 1918, um vírus propagou-se pelo mundo de forma devastadora. Os tempos são outros, mas há erros que era bom não repetir. Logo a começar pelo uso da palavra.

Parece coisa de filme: um vírus novo surge, ainda discreto, e de repente começa a propagar-se, indiferente a fronteiras. Os números começam a aumentar de forma galopante e, a dada altura, o custo de vidas humanas faz-se sentir com cada vez mais violência. Embora possa parecer, esta não é a história do novo coronavírus, batizado Covid-19, e que já atingiu centenas de milhares de pessoas. É, na verdade, a história de um vírus que há pouco mais de um século fez milhões de vítimas. Chamaram-lhe a febre espanhola — ou influenza. E não tivesse sido contemporâneo de um mundo ainda a com as feridas da I Guerra Mundial bem abertas, estaria bem destacada como uma das maiores catástrofes humanitárias, não só do século XX mas de sempre.

Na altura, a ciência era bem menos evoluída do que hoje em dia. Mas para o vírus se propagar, muito contou a forma como certas autoridades começaram por desvalorizar o problema, até que este atingiu níveis dantescos. Em tempos de Covid-19, é bom salientar que o medo até é bem-vindo na altura de ter cuidado. Mas na era da Internet, convém também não cair no outro extremo, em que o pânico toma conta da racionalidade. O que fazer? Não há um equilíbrio absolutamente certo para algo assim. Mas a informação cuidada e a transparência de quem governa são fatores importantes para enfrentar uma crise deste género.

Falando à “New Yorker”, o historiador de medicina Howard Markel, da Universidade do Michigan, lembrou como tantas vezes o tentar esconder “contribuiu quase sempre para a disseminação de uma pandemia”.

As lições da gripe espanhola em tempos de coronavírus

Este fenómeno aconteceu na Alemanha em 1892. Por razões económicas, com receio de que o encerramento do porto de Hamburgo trouxesse um desastre económico, o governo local tentou esconder uma epidemia de cólera. Quando assumiram a existência de um problema grave, era já bem mais difícil enfrentá-lo. O filme “Filadélfia” conta-nos a história de um paciente com Sida a enfrentar a doença nos EUA dos anos 80. No final, somos lembrados de como a administração de Ronald Reagan desvalorizou o problema. A ignorância tratava a coisa de forma discriminatória e despreocupada, como o tipo de doença que só afetaria homossexuais. Quando assumiram que havia um problema, já milhares tinham sido atingidos pela doença.

Negação em tempos de vírus

recente coronavírus serviu também para nos lembrar de como é importante transparência da parte de quem tem o poder. Na China, o médico Li Wenliang foi o primeiro a alertar para o surgimento de um novo vírus, na cidade de Wuhan. Ao início, as autoridades locais acusaram-no de espalhar desinformação. Mas na verdade o que começou a espalhar-se em dezembro de 2019 (e o Covid-19 vai buscar parte do seu nome ao ano em que surgiu) era o próprio vírus. O alerta do médico provou ser verdadeiro. A 22 de janeiro, toda a cidade de Wuhan foi colocada de quarentena. Imagens que surgiram de lá nas semanas seguintes davam conta de uma cidade fantasma, de ruas vazias. Nas semanas seguintes, a China assumiu o impacto económico: escolas, fábricas, eventos desportivos, tudo foi encerrado. A área de contenção chegou a englobar cem milhões de pessoas.

Wenliang acabaria por morrer vítima do vírus a 7 de fevereiro. No mês seguinte, em março, a China ainda enfrentava o problema mas dava finalmente a sensação de estar a conseguir conter a propagação. O caso do Irão foi outro a mostrar-nos o absurdo de tentar esconder um problema de saúde pública desta magnitude. Os iranianos, já de si desconfiados da propaganda política, chegaram a ver a conferência de imprensa em que Iraj Harirchi, do ministério da saúde local, desvaloriza o vírus ao mesmo tempo que tossia durante toda a conferência de imprensa. Horas depois, o absurdo ganhava contornos entre o trágico e o cómico: o governante iraniano que negava a propagação do vírus era mais um paciente a receber o diagnóstico positivo para o novo coronavírus. Há pouco mais de um século, o mundo foi testado neste desafio de transparência do poder político. E em vários aspetos o resultado foi desastroso.

Lições da história

Na segunda metade de 1918, numa Europa devastada pela I Guerra Mundial, um vírus começou a propagar-se com a velocidade de uma gripe. Infelizmente, era bem mais letal do que a gripe comum. Os EUA, na altura com Woodrow Wilson a presidente, estavam demasiado preocupados com o esforço de guerra para dar a devida atenção ao novo vírus. A propaganda focava-se na guerra em que os EUA haviam entrado em 1917. Foi inclusive passada legislação algo comum em tempos de guerra, em que a disseminação de informação contrária aos interesses do país era criminalizada. Mas a realidade de uma doença não se preocupa com o que os legisladores decidem.

As lições da gripe espanhola em tempos de coronavírus

Em 1918, numa base militar no Kansas, vários militares ficaram infetados. A doença espalhou-se ao início no meio militar até que começou a atingir a população civil. No espaço de meses, a doença propagou-se com violência. No espaço de dois anos, os números atingiram proporções impressionantes: ainda hoje não se sabe quantas pessoas morreram da gripe espanhola, mas há algum consenso nas estimativas que apontam para dezenas de milhões de mortos a nível mundial. Nos EUA, foram várias as cidades, incluindo Nova Iorque e Los Angeles, onde as primeiras mensagens de desvalorização da doença foram ridicularizadas pela brutalidade do que estava a acontecer. A dada altura, já havia escassez de caixões para tantos mortos. Em certas cidades, voluntários seguiam pelas ruas a recolher corpos, à imagem das descrições da Peste Bubónica, que afetou a Europa medieval. A juntar a tudo isto, um dos desafios de então nos EUA foi o facto de boa parte do pessoal médico estar na Europa, a dar assistência aos militares na guerra. O país simplesmente não estava preparado para o que aí vinha.

A bem da ironia, a gripe ganhou o nome de espanhola e não foi propriamente por Espanha ser a grande culpada da propagação. Na verdade, deram-lhe este nome porque, como Espanha se tinha mantido neutra na I Guerra Mundial, a imprensa espanhola acabava por ser a única a dar conta sem censura da propagação daquela nova gripe. O nome ficou. Como esperamos que tenham ficado algumas das lições de então.

Da pouca informação ao excesso

Chegados a 2020, descobrimos agora a escala a quem podem ter de chegar as medidas de contenção da doença. Em Itália, onde o Covid-19 só começou a ser combatido devidamente quando já estava em fase de disseminação, o país inteiro entrou de quarentena. Em Portugal, ainda foi possível fazer humor com uma parte da comunicação social que parecia já ansiosa pela chegada de novos casos. Quando chegaram, os números não demoraram muito até chegar às dezenas, altura em que começaram a chegar as primeiras notícias de funcionários a trabalhar a partir de casa e de universidades fechadas, bem como dos planos para os jogos da I Liga serem disputados à porta fechada.

Se em 1918 faltou informação, o desafio agora parece ser o inverso: uma simples pesquisa no Google por “coronavírus” ou “Covid-19” devolve milhares de milhões de respostas. Pelo meio, vimos o já habitual cocktail de fake news, pânico e desinformação: houve asiáticos alvo de discriminação pelo simples facto de serem asiáticos. Houve dúvidas idiotas levantadas sobre se ir a um restaurante chinês bastava para nos infetar à conta de um Pato à Pequim qualquer.

Certas indústrias iriam ser inevitavelmente afetadas por um vírus novo que é importante conter: as companhias aéreas e o turismo, por implicarem viagens, surgem logo à cabeça. Mas a dada altura o receio passa a ser se no lugar de uma pandemia a afetar a saúde pública temos “uma pandemia económica”, expressão que o próprio primeiro-ministro António Costa usou em conferência de imprensa.

A corrida às máscaras foi outro fenómeno, um que acaba por retirar máscaras de onde elas são efetivamente necessárias nesta fase. A saber: “pessoas com sintomas de infeção respiratória (tosse ou espirro); suspeitos de infeção por Covid-19 e pessoas que prestem cuidados a suspeitos de infeção por Covid-19”, como anunciou atempadamente a Direção-Geral de Saúde.

As lições da gripe espanhola em tempos de coronavírus

O grande receio do coronavírus prende-se pela novidade e pela fácil propagação. Como o vírus não é tão mortal como era o SARS, é possível que infete pessoas que só apresentam sintomas menos severos (e como tal podem estar inadvertidamente a propagar o vírus). Compreende-se por isso o cuidado em evitar grandes ajuntamentos públicos, precisamente uma das razões que ajudou à propagação da gripe espanhola.

Por outro lado, a mesma globalização que pode facilitar a propagação tem armas novas para combater este surto: hoje em dia é mais fácil a comunidade científica de diferentes pontos do planeta estar em contacto. De resto, os epidemiologistas ainda estão a desvendar este novo vírus e há muito estudo e trabalho pela frente para haver uma vacina. Pode até dar-se ocaso de serem batidos todos os recordes de tempo para se ter uma vacina. Mas não sem que antes o vírus tenha pelo menos um ano inteiro para se propagar.

O primeiro teste que já se sente é económico (e sabemos que, para lá das medidas de contenção que forem necessárias, o pânico pode ter efeitos devastadores). Mas também adivinha-se outro desafio ao nível de infraestruturas: nos países onde o vírus está ainda em fase de crescimento os hospitais já estão a sentir necessidade de esticar os recursos ao máximo.

Chegados aqui, o que fazer? Talvez evitar dar ouvidos a certos líderes políticos que insistem em dar conselhos mesmo mostrando falhas de conhecimento básicas sobre estas matérias. Donald Trump, por exemplo, questionava se vacinas para outras gripes não dariam para esta — e não, não dão. Nem o pânico nem informações avulsas sem sustentação científica ajudam nesta altura. A boa notícia é que apesar do susto inicial, a taxa de mortalidade daqueles primeiros tempos de propagação em Wuhan desceu. Os idosos, mais frágeis, e pacientes de doenças respiratórias crónicas, estão entre aqueles para quem o risco de vida é maior e merecem por essa razão que o cuidado seja de todos. Por essa razão, os cuidados higiénico-sanitários são um bom ponto de partida para todos nós fazermos a nossa parte. E, no entretanto, o melhor mesmo é procurar dar ouvidos aos conselhos dos especialistas e autoridades de saúde pública.