Desporto

Quem é a piloto de 17 anos que corre com os profissionais – e que sonha chegar à F1

Gabriela Correia é a mais jovem e a única mulher a correr no Campeonato de Portugal de Montanha e agora vai acelerar no de Velocidade. O sonho é ser tão boa como Ayrton Senna.

Gabriela não é apenas mais uma miúda de 17 anos preocupada com os estudos e com as boas notas do 11.º ano que tenta terminar com sucesso. Nas mãos esconde um talento que lhe permite sonhar e, pelo caminho, colocar em sentido homens graúdos de barba rija ou não fosse ela a mais jovem piloto de sempre do Campeonato de Portugal de Montanha.

As dificuldades estavam definidas à partida. O automobilismo ainda é um mundo dominado por homens e os obstáculos colocados às mulheres são evidentes. Ainda assim, Gabriela Correia não parece assustar-se. Nem ela nem os adeptos das provas de velocidade e de montanha, que começam a ganhar um gosto especial por ver as habilidades daquela que é a única mulher a competir nas provas.

“Este gosto pelos automóveis começou quando o meu o pai começou a correr. Eu acompanhei-o sempre desde o início e fui gostando também cada vez mais de automóveis e quis experimentar”, conta à PLAYBOY.

José Correia, o pai, também é piloto de Montanha e tem sido o seu grande exemplo. Quando percebeu que Gabriela começou a interessar-se pelos carros, colocou-a a competir em karts, logo em 2015. O potencial revelou-se de imediato. Primeiro um pequeno troféu, depois o Mundial de Karting e vários campeonatos em 2016 e 2017. Foi acumulando vitórias nas várias categorias pelas quais passou, embora a recompensa mais importante tenha sido a experiência, até porque o objetivo nunca foi ficar-se pelos pequenos karts.

“Comecei nos karts já com o objetivo de evoluir para os carros, mas não sabia que ia ser tão cedo, achei que ia ser mais tarde”.

Quem é a piloto de 17 anos que corre com os profissionais – e que sonha chegar à F1
Gabriela com o pai, junto ao kart em que competiu no início da carreira

Não foi. Gabriela contou os dias para poder entrar numa competição oficial com carros maiores e mais potentes. Até lá, tirou a carta de 250 cc e aproveitou os ensinamentos do pai para aprender a conduzir, uma ajuda que considera preciosa.

“Tem que se ter sempre alguém que nos ensine, que esteja disponível para nós e que tenha muita paciência. Porque se temos alguém de confiança e com paciência para nos ensinar, é um bom primeiro passo.”

A estreia em competição aconteceu a 13 de maio de 2018, na Rampa da Falperra, precisamente no dia em que completou 16 anos, a idade mínima para poder conduzir. Pelo caminho foi treinando no Circuito Vasco Sameiro para se adaptar ao carro, uma experiência muito diferente dos karts que conduzira.

“As principais diferenças que senti foi nas mudanças, porque o kart em que eu andava não tinha mudanças, então foi uma experiência nova. No entanto, acho que o karting me deu uma grande base em termos de trajetórias, pontos de travagem e aprendizagem de condução”, revela à PLAYBOY.

Apesar do percurso nos karts, toda a experiência e bons resultados, a passagem para os carros de Turismo e as provas de Montanha não foi assim tão fácil. A começar logo pela estreia, onde alguns problemas mecânicos a afastaram dos bons resultados. Ainda assim, a jovem parece ter saído com ainda mais vontade de ganhar provas: “A Falperra foi um caso especial até porque era a minha cidade, a minha prova de estreia e o meu dia de aniversário. Foi muita coisa ao mesmo tempo, deu-me nervosismo e ansiedade, o que me levou também a um resultado menos positivo. No entanto, a partir daí fez com que ganhasse mais vontade de evoluir nas provas a seguir no resto do campeonato. Consegui terminar a geral do campeonato em segundo lugar da minha categoria, portanto foi uma grande vitória para mim.”

Gabriela corre em Turismo 3 e é a única mulher a competir no Campeonato de Portugal de Montanha. Apesar de não sentir que a tratem de forma diferente por ser uma miúda de 17 anos, não esconde que, pelo contrário, há muitos colegas que a acarinham de forma especial. Tanto que é tratada por Princesa da Montanha, um apelido dado pelo speaker das provas e que se tornou mais comum entre os seguidores da modalidade.

O preconceito em relação à idade ou ao género parece não existir. O mesmo não se pode dizer quando se sentam ao volante das máquinas e competem ferozmente. É que os sorrisos dos homens experientes começam a esmorecer quando espreitam se vêem ultrapassados por Gabriela.

Quem é a piloto de 17 anos que corre com os profissionais – e que sonha chegar à F1
A jovem piloto tem o pai como modelo também no automobilismo

“Os pilotos em si foram encarando de forma positiva a minha chegada, alguns até me encararam um pouco como família, sendo que eu era ali uma menina e muito jovem. Se bem que depois, a partir dos resultados, quando consegui melhorar e fui evoluindo, as pessoas começaram a olhar de maneira diferente, mas sempre a apoiar muito e a ajudar a evoluir. Acho que o ambiente na Montanha não é tão agressivo como penso que seja em Circuito e noutro tipo de modalidades.”

A Montanha foi escolhida precisamente por ser a modalidade em que o pai se estreou, o que não quer dizer que a jovem estudante queira ficar-se por aí. O sonho é ambicioso: chegar à Fórmula 1. O caminho, sabe, é difícil, embora continue otimista, até porque os “sonhos são sonhos”. Para já sente-se feliz com as provas de Montanha e de Circuito e é nessas que quer ter “os melhores resultados possíveis”.

Escolher entre umas ou outras é que não é possível. Quando começou, Gabriela achou que os Circuitos iam ser as suas provas favoritas, só que o primeiro ano de Montanha fê-la hesitar e não saber o que responder quando lhe perguntam de qual gosta mais.

As provas nos Circuitos têm começado a fazer cada vez mais parte do percurso e este parece ser uma caminho que a deixa mais perto de seguir os passos do ídolo de sempre, o antigo piloto brasileiro Ayrton Senna, que morreu vários anos antes de Gabriela nascer.

“Não cheguei a ver nem a conhecer, mas tenho a possibilidade de ver entrevistas e corridas no YouTube as corridas. Aprecio bastante a forma como conduzia e a personalidade.”

Atualmente, Gabriela está a competir no campeonato de velocidade. A estreia foi um sucesso e foi feita com uma vitória na T1, a sua categoria, logo na primeira vez que correu no circuito do Estoril. A prova decorreu no fim de semana de 13 e 14 de abril, curiosamente, dias antes de, a 21 de abril, se celebrarem os 34 anos da primeira vitória da carreira de Senna no mesmo local. Pode ter sido um bom presságio.

No meio de tantas vitórias, não se pense que a vida de piloto, mesmo que não profissional, é fácil. A adrenalina é uma constante e o medo também. A jovem não concorda, explica que não se dá a esse tipo de sentimentos, que admite “iriam condicionar os resultados durante a prova”.

Diz que não tem medo, o que não quer dizer que não tenha tido um ou outro episódio mais assustador. Um dos mais marcantes aconteceu no Circuito Vasco Sameiro, um ou dois meses antes de se iniciar nos carros de Turismo, em 2018.

“Estava às voltas na pista, ia no final da reta e fiquei sem travões. Tentei reduzir mas a minha caixa é muito específica e não reduz quando eu quero, é só quando está em baixas rotações, então também não deu. O meu carro não tem travão de mão, não dava para travar por aí. Então tive que desenrascar-me. Havia um espaço de gravilha, fui em frente, o carro abrandou um pouco, vi que dava para virar e sair da escapatória e aí consegui que o carro fosse abrandando por si e só encostou nos pneus do outro lado da pista”, recorda.

Apesar de estar bem lançada e dos sonhos serem muitos, Gabriela não embarca em loucuras e sabe que difiiclmente fará disto profissão. O automobilismo vai ficar apenas para hobby de fim de semana e o curso de Gestão assumirá o papel central na carreira. Até lá, é preciso ir conciliando as corridas com os estudos porque se não tiver boas notas na escola é castigada com a falta das provas, o que até considera “uma motivação extra”.

O próximo objetivo é chegar aos 18 anos e tirar a carta de condução completa para poder conduzir também na estrada. E até já tem candidatos a passageiros: os amigos, que a apoiam nas corridas — especialmente as que são perto de casa —, e que diz confiarem na sua perícia.

Quanto aos carros, fica o sonho de um dia vir a trocar o seu Seat Leon TCR MK3 por um Porsche 911 RSR.