Desporto

Niki Lauda, o computador das pistas que tinha medo de morrer

Antigo piloto de F1 não resistiu a problemas respiratórios e morreu a 21 de maio.

Niki Lauda, uma das lendas da Fórmula 1 morreu esta terça-feira, 21 de maio, em Viena. Foi precisamente na mesma cidade que o viu nascer, há 70 anos, que o antigo piloto não resistiu a um problema respiratório.

“É com enorme tristeza que anunciamos que o nosso querido Niki morreu em paz, rodeado pela sua família, esta segunda-feira”, explicou a família num comunicado, citado pelo “Jornal de Notícias”.

Lauda tinha feito um transplante pulmonar no verão passado e, entre as várias cirurgias feitas estavam dois transplantes de rim. Também era obrigado a fazer hemodiálise.

“As suas realizações únicas como desportista e como empresário são e serão sempre inesquecíveis. O seu dinamismo inesgotável, a sua integridade e a sua coragem serão um modelo e uma referência para todos nós”, acrescentou a família.

Três vezes campeão do mundo de F1 e o único até ao momento a conseguir vencer o campeonato pela Ferrari e pela McLaren, Lauda foi um dos melhores pilotos da história e uma figura incontornável do desporto. Entre os sucessos estão, claro, as vitórias em 1975, 1977 e 1984, mas também as provas que foi vencendo, as palavras que ajudaram a formar outros desportistas e porventura aquela que foi a sua maior vitória: a sobrevivência a um desastre trágico.

O menino rico na F1

Filho de um empresário industrial, Niki Lauda era um rapaz de boas famílias vienenses e, como tal, a família não achava grande graça que arriscasse a vida num desporto de carros, velocidade e egos perigosos. Pouco adiantou a resistência, até porque um dos traços que definia o piloto era a perseverança, além de não ligar muito à opinião dos outros sobre o que quer que fosse.

Lauda começou a carreira aos 19 anos ainda na Fórmula 3, passou para a Fórmula 2 e já aí demonstrava garra e vontade de ficar sempre nos lugares do pódio. Com o objetivo claro de poder continuar a competir, em 1971 falou com a família para reunir algum dinheiro para investir na profissão. A família acabou por pedir empréstimo ao banco e esse dinheiro serviu para pagar a sua entrada na March, equipa que o lançou no mais alto escalão do automobilismo.

A primeira época foi um desastre e foram mais as desistências do que as provas que conseguiu concluir. O segundo ano melhorou um pouco mas ainda assim estava abaixo do que o austríaco idealizava. Mudou-se para a BRM já como um bom piloto e com salário e foi essa experiência que o levou até à F1.

Niki Lauda, o computador das pistas que tinha medo de morrer

Na equipa da BRM cruzou-se com o italiano Clay Regazzoni, que gostou dele e o recomendou à Ferrari, para onde viria a mudar-se em 1974. O primeiro título chegou logo na segunda temporada na equipa italiana e foi aí que começou a tornar-se uma lenda.

Os colegas viam nele um piloto calculista, pragmático. Ao contrário da grande maioria dos pilotos e especialmente do rival James Hunt, quase todos indiferentes aos perigos que enfrentavam, Lauda sabia que a morte estava em qualquer canto – e protegia-se dela. Os riscos eram sempre calculados e todas as decisões em pista pensadas ao milímetro. Valeu-lhe a alcunha de O Computador.

A morte à espreita

A época de 1976 foi uma das mais emocionantes e onde cresceu a famosa rivalidade entre Lauda e James Hunt. Os dois pilotos eram os melhores do seu tempo e disputavam cada ponto entre eles como um caso de vida ou morte, como acabaria por quase acontecer.

Foi a 1 de agosto de 1976 que Lauda sofreu o acidente que haveria que mudar a vida do piloto. Antes mesmo de a prova começar no Circuito de Nurburgring, na Alemanha, Lauda reclamou das condições do piso e da falta de segurança. E tinha razão. Foi acusado de tentar adiar a corrida e assim melhorar ainda mais as hipóteses de se tornar campeão a frente de Hunt, um título que dificilmente lhe escaparia em condições normais.

Na segunda volta à pista, o austríaco despistou-se, teve um acidente e o carro incendiou automaticamente. O problema foi precisamente aquele para o qual tinha alertado: as dificuldades de segurança e de aceder à pista. Resultou numa demora dos meios de socorro em chegar ao local onde o piloto estava.

Quando foi salvo, grande parte do seu corpo tinha queimaduras graves e muito graves, ficou sem uma orelha e em coma no hospital. Tanto que ao terceiro dia um padre deu-lhe a extrema unção, um facto que lhe desagradou e que o fez querer ainda mais sair daquela situação.

“Continuei a dizer, se ele quer fazer aquilo, tudo bem, mas não vou desistir”, disse após a recuperação, citado pelo “The New York Times”.

E a recuperação foi, de facto surpreendente. Cinco semanas depois do acidente, Lauda voltou às corridas, no Grande Prémio de Itália, em Monza, deixando todos boquiabertos.

“Na altura fiquei revoltado com as pessoas que nunca olhavam para mim nos olhos”, disse ao “Independent”, em 2013, quando estreou o filme “Rush”, que conta a história da rivalidade entre Lauda e Hunt.

Ao fim de vários anos, o aspeto desfigurado ainda pesava sobre Lauda, mas até mais sobre quem o rodeava. Percebia que custava a todos vê-lo assim, embora fosse algo indiferente para o austríaco.

Nunca quis fazer cirurgias plásticas, apenas o estritamente necessário para sobreviver como uma cirurgia às pálpebras. O resto era parte da sua própria história.

Nesse ano ficou em segundo lugar, atrás de James Hunt, contas que se decidiram na última prova da época, no Japão. Niki Lauda recusou-se a correr devido à chuva e às condições em que estava a pista e o rival aproveitou.

“Sinto muito pelo Niki. Sinto muito por todos que a corrida tenha sido feita em circunstâncias tão ridículas porque as condições eram perigosas e admiro a decisão do Niki”, disse na época.

Do ar novamente para a pista

Lauda trocou a Ferrari pela Parmalat em 1978, depois de ter sido campeão do mundo pela segunda vez. Os resultados começaram a ser cada vez piores e acabou por abandonar a modalidade no final de 1979 para se dedicar a outro projeto: a sua companhia de aviação.

A Lauda Air foi criada em 1979 e funcionava como táxi aéreo ou para voos fretados. Em 1990 passou a fazer também voos internacionais mas as coisas começaram a não correr tão bem e Lauda vendeu a empresa à Austrian Airlines.

Niki Lauda, o computador das pistas que tinha medo de morrer

Esta dualidade entre a F1 e a aviação ainda levou Niki Lauda às corridas novamente entre 1982 e 1985, na McLaren, o que o levou à conquista do campeonato em 1984. Quando se retirou, passou a integrar várias equipas como consultor e, mais recentemente, era diretor da Mercedes, onde foi um dos responsáveis pelas vitórias e Hamilton e onde todos o admiravam nas boxes.