Desporto

As histórias tristes dos craques anunciados – e um aviso a João Félix

Brilharam por pouco tempos nos clubes e mudaram-se cedo para clubes de topo. E todos, sem exceção, desiludiram.

Uma das figuras mais marcantes do campeonato que o Benfica venceu este sábado, 18 de maio, foi João Félix, um dos craques saídos da academia do clube. O jovem avançado de 19 anos conquistou os adeptos benfiquistas e não só. É que com 20 golos marcados em 43 jogos, há clubes estrangeiros dispostos a contrtá-lo a todo o custo.

O Manchester City é um dos pretendentes e apesar de Félix ter contrato até 2023 e uma cláusula de rescisão de 120 milhões de euros, o “Correio da Manhã” avança que tanto a família do jogador como o empresário Jorge Mendes acham que este será o momento ideal para sair.

Opinião contrária terá Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, e não é de estranhar, uma vez que já viu vários casos semelhantes de jovens que fazem uma boa época na equipa principal, conseguem transferir-se para o estrangeiro por vários milhões e acabam por ser uma enorme desilusão.

Os motivos são variados e nem sempre estão ligados à falta de qualidade dos futebolistas. A imaturidade, a distância da família, dos amigos e dos locais onde sempre viveram, a chegada a um país estranho com colegas desconhecidos e que falam uma língua que não dominam são alguns dos aspetos que podem estar na origem das dificuldades de adaptação.

Um dos casos mais célebres é o de Renato Sanches. Atualmente com 21 anos, o médio foi formado no Seixal e passou para a equipa principal do Benfica na época 2015/16 pelas mãos de Rui Vitória. A época não podia ter-lhe corrido melhor: fez 35 jogos, marcou dois golos e ainda foi ao Europeu, que conquistou com a Seleção Nacional. O pior veio depois, quando se mudou para o Bayern Munique.

“Pensava que o Europeu me tinha preparado para a Bundesliga, mas não. Em Portugal corria e com a capacidade técnica conseguia disfarçar alguma fadiga. Na Alemanha podemos correr, mas o jogo é tão rápido que tem de ser coordenado. A primeira época não foi a ideal”, disse Renato Sanches em entrevista ao “The Players’ Tribune”, citada pela “TSF”.

Afinal, os 35 milhões de euros que os alemães pagaram não tiveram o retorno esperado, com o jovem a fazer apenas 25 jogos e um total de 1156 minutos. O resultado foi um empréstimo ao Swansea City no ano seguinte, onde também não sobressaiu. Regressou a Munique nesta última temporada para fazer mais 24 jogos e apenas 941 minutos, uma média bem abaixo do esperado.

Este é um exemplo que Toni, o antigo treinador do Benfica, também sublinhou ao comentar a possível saída de João Félix. “O Benfica deve gerir este tempo em termos do seu crescimento, e já teve o exemplo de Renato Sanches, que talvez tenha saído de forma precoce”, afirmou em declarações à “Rádio Renascença” citadas pelo jornal “A Bola”.

O azar de Markovic

Há um outro caso que fica na memória benfiquista. O sérvio Lazar Markovic veio para a equipa lisboeta em 2013, quando tinha apenas 20 anos e fez a melhor época da carreira. Esteve em 49 jogos pelo Benfica e somou 2842 minutos e sete golos.

A equipa foi campeã com Jorge Jesus, num grupo que contava com nomes como Artur Moraes, Garay, Luisão, Gaitán, Enzo Pérez, Cardozo ou Salvio. A projeção do clube e das suas exibições levaram Markovic a transferir-se para o Liverpool por 25 milhões de euros.

Na primeira época em Inglaterra somou 1875 minutos em 34 jogos e a partir daí foi sempre a descer, de empréstimo em empréstimo. Um deles levou o sérvio Sporting em 2017, onde fez meia época e, para não variar, desiludiu.

Na última temporada esteve no Fulham onde jogou apenas metade de uma partida e de onde sai agora livre de qualquer vínculo para procurar clube.

O caso Gelson

No Sporting também há casos falhados de transferências de jovens promessas. Gelson Martins é um deles e, embora já tivesse 23 anos quando deixou Alvalade, a mudança não foi fácil.

Depois de três épocas na equipa principal a um bom nível, sempre a evoluir e com 13 golos marcados em 52 jogos em 2017/18, a transferência para o Atlético Madrid, depois da polémica saída a custo zero na sequência do ataque a Alcochete, prometia a evolução de um dos craques do futebol português. Não foi o caso. Fez apenas 12 jogos e foi emprestado ao Mónaco a meio da época.

No clube francês os resultados melhoraram um pouco e, apesar dos 16 encontros disputados, passou a ser titular e o negócio atribulado com o Atlético foi finalmente fechado, numa negociação que rendeu ao Sporting 15 milhões de euros mais Vietto.

Para André Silva, nem Itália nem Espanha

André Silva chegou à equipa principal do FC Porto em 2015/16 e não largou o lugar. A época seguinte foi a melhor da sua carreira, somou 21 golos em 44 jogos e tornou-se numa das estrelas do plantel e um dos grandes nomes a sair da formação portista nos últimos anos.

O sucesso levou-o ao Milan por 38 milhões de euros, quando tinha apenas 21 anos. A transferência foi considerada à época por muitos portistas como precipitada e o resultado foi inesperado. Embora até tenha conseguido entrar em 40 partidas e somado dez golos, só contabilizou 1964 minutos, um número muito reduzido face ao ano anterior.

Acabou por não fazer parte dos planos da equipa para esta última época e, por isso, foi emprestado ao Sevilha. Em Espanha a época até começou bem com um hat-trick logo no segundo jogo, mas as exibições foram tornando-se cada vez mais irregulares, tanto em minutos jogados como em golos.

Esta irregularidade deveu-se em parte a uma lesão, que até foi motivo para alguma troca de palavras com o treinador. O técnico do Sevilha terá insinuado que André Silva estaria a simular a lesão e que se fosse para jogar pela Seleção estaria sempre pronto. O português não gostou.

“Se ter uma lesão já incomoda, insinuações sobre este tipo de coisas, dizerem que eu posso jogar e não jogo… Ninguém me pode acusar de falta de profissionalismo, fico um bocado triste por porem em causa valores que muito prezo”, explicou ao jornal “A Bola”.

De empréstimo em empréstimo até voltar ao Sporting

Tiago Ilori foi formado em Alcochete e esteve cerca de meia época na equipa principal do Sporting. Em 2013, quando tinha apenas 20 anos, foi vendido ao Liverpool por 7,5 milhões de euros.

Embora o objetivo passasse por mostrar toda a qualidade num grande clube inglês. não foi bem isso que aconteceu. O defesa saltou de clube em clube, sempre emprestado e sem fazer mais do que uns poucos jogos em cada um deles. Do Liverpool para o Granada, depois para Bordéus, daí para o Aston Villa e de regresso ao Liverpool. O último empréstimo foi ao Reading, que o comprou por 4,3 milhões de euros em 2017 e o vendeu novamente ao Sporting a meio da última temporada, por 2,4 milhões de euros.

Mesmo no Sporting as coisas não estão a correr bem. Desde janeiro, Ilori somou pouco mais de 500 minutos em nove jogos.

João Mário, de campeão da Europa a emprestado

Como aconteceu com outros colegas, a conquista do Europeu por Portugal trouxe oportunidades de transferências para clubes estrangeiros e João Mário mudou-se para o Inter por 40 milhões de euros. Tinha na altura 23 anos e conseguiu somar 2169 minutos em 32 jogos na primeira época.

Desde aí o médio não tem conseguido afirmar-se. Em 2017/18 foi emprestado meia época ao West Ham e aí até nem esteve tão apagado, mas o regresso a Itália trouxe também o regresso ao banco e aos poucos minutos em campo.

No final desta época têm surgido rumores de um possível interesse do FC Porto e há notícias de que tenha sido expulso do treino do Inter a 16 de maio devido a uma alegada falta de empenho.

Rúben Semedo e os casos à margem do futebol

Podia ter sido conhecido pelas boas exibições, mas há alguns meses que o que mais distingue Rúben Semedo são os casos de polícia em que se envolveu. Formado no Sporting, o defesa esteve emprestado ao Réus e ao V. Setúbal antes de conseguir afirmar-se na equipa principal de Alvalade. Isso aconteceu em 2015/16 e melhorou na época seguinte.

Foram os 2720 minutos em 31 jogos que o fizeram destacar-se e mudar-se para o Villarreal por 14 milhões de euros. Aqui entrou outro problema: as confusões judiciais que o deixaram em prisão preventiva e que o afastaram dos relvados.

Isso fez com que o ambiente no Villarreal não fosse o melhor e por isso o caminho mais certo foi o empréstimo ao Huesca no início da última época. Em janeiro mudou-se para o Rio Ave, também por empréstimo, e foi aí que começou a recuperar um pouco do que tinha perdido, sendo titular em 14 jogos.

“Uma pessoa, ou um miúdo, que saia do seu país para uma liga tão forte como a espanhola, com tanto dinheiro, devia ter mais acompanhamento. Devia reconhecer que não podia estar sozinho com tanto poder financeiro, devia ter percebido os amigos que tinha por perto, que não eram meus amigos. Rodeei-me de pessoas que não queriam o melhor para mim, em ambientes que não eram para um profissional, como as discotecas. Foi o meu grande erro”, admitiu ao jornal “A Bola”, citado pelo “Mais Futebol”, sobre o que viveu em Espanha.