Desporto

As chuteiras de Ronaldo que podem mudar uma vida

João concretizou um sonho. Foi a Madrid conhecer o craque, trocou camisolas e trouxe um presente que pode valer milhares de euros.

O leilão anunciava que qualquer um podia ser o dono de um par de chuteiras do maior craque português. Em exibição no Palácio do Correio Velho, em Lisboa, deveriam chegar às mãos de um novo dono na quarta-feira, 15 de maio, mas isso nunca aconteceu. O currículo das botas que Cristiano Ronaldo usou para marcar 19 golos e enfrentar o Barcelona no campeonato espanhol estava certificado por nada mais nem menos do que Dolores Aveiro, mãe do futebolista.

A mãe do craque não só certificava a autenticidade como dava toda a liberdade ao detentor das chuteiras de fazer com elas o que bem entendesse. O leilão acabou por ser cancelado e as Nike Superfly II Safari II CR7 voltaram para as mãos de João Pinto Pais. Mas quem era o dono misterioso e como é que agarrou este valioso par do capitão da Seleção?

“Estava sentado no aeroporto de Lisboa e vi uma senhora que achei que conhecia, mas deixei-a passar. Depois lembrei-me que era a Dona Dolores. Fui a correr atrás dela e disse-lhe: ‘Dona Dolores, era possível dar-me umas chuteiras do Cristiano? Eu já joguei no Sporting e sempre foi esse o sonho dos que o víamos a jogar nos séniores'”. O pedido não foi ignorado.

“Perguntou-me se tinha mesmo jogado no Sporting, ligou para o senhor Aurélio Pereira da Academia do Sporting e disse: ‘Amanhã vou lá levar-te as chuteiras ao campo do Marítimo’.”

Em 2011, ano do encontro de sorte com a mãe de CR7, João Pais já tinha largado a camisola do Sporting e jogava na equipa de júniores do Estrela da Amadora. Nascido no Seixal, o jovem que hoje tem 26 anos começou a jogar no Arrentela com apenas oito. O salto para o Sporting não tardou, graças aos olheiros atentos. “Depois fui emprestado ao Real Massamá, fiz uma boa época, fui emprestado ao Belenenses e depois fui para o Estrela da Amadora”, conta à PLAYBOY.

Apesar da promessa de Dolores Aveiro, ninguém acreditava que o presente chegaria mesmo. Os próprios colegas de João acusaram-no de ser ingénuo. “Viajámos no mesmo avião, eu fui para o hotel e, no dia seguinte, quando estava já no campo a aquecer, o massagista disse-me: ‘Oh cigano, está aqui a tua avó’. Quando cheguei lá, estava a Dona Dolores. Disse-me: ‘As botas não são para jogares, mas para guardares. Espero que não, mas se algum dia tiveres um problema na tua vida, poderás fazer um leilão com elas.‘”

As chuteiras de Ronaldo que podem mudar uma vida
A estreia de Ronaldo com as chuteiras foi no dérbi de Madrid de 2010

As surpresas não terminaram aí. A mãe do atual jogador da Juventus pediu o número de telefone de João e ligou-lhe a seguir ao jogo a pedir que autografasse uma camisola sua para entregar a Ronaldo.

O episódio fez nascer uma amizade entre os dois. A proximidade levou João a concretizar mais um sonho: conhecer CR7. “Disse-lhe que tinha o sonho de ir a Madrid conhecer o Cristiano. Ele autorizou e eu fui lá. Mandou o Miguel [Paixão], que é uma pessoa que trabalha para o Ronaldo, e estive lá umas três vezes a ver os jogos – e jantei com ele também”.

As viagens ficavam a cargo de João, que dormia em casa de Miguel Paixão. Os jantares foram todos pagos pelo capitão da Seleção Nacional. Na primeira viagem, em 2011, o jovem jogador fez questão de levar um conjunto de roupa como presente para Cristianinho.

“Entreguei a roupa à Dona Dolores para entregar ao Cristianinho. Estive lá, vi o jogo do Ronaldo e voltei para Lisboa. No outro dia vi nas notícias que o Cristiano [filho] ia de Madrid para a Madeira e apareceu com a roupa que eu lhe ofereci. Eu nem acreditava”, recorda.

O encontro esperado aconteceu depois do jogo, no restaurante onde Ronaldo iria jantar. “No fim do jantar que tinha uma surpresa para mim. Ofereceu-me uma camisola e disse-me: ‘Para a próxima vez que vieres cá, vou assinar-te a camisola’. Passado um tempo voltei e ele assinou-me de facto a camisola”.

As chuteiras de Ronaldo que podem mudar uma vida
João Pais na primeira viagem a Madrid para conhecer Cristiano Ronaldo

O que leva um jovem a desfazer-se de um objeto tão precioso para um fã de Ronaldo? Nascido numa família pobre de etnia cigana, procurou no futebol uma carreira que pudesse dar-lhe outro nível de vida. A carreira desportiva não correu bem e hoje vê-se forçado a leiloar o par oferecido por CR7 para sustentar a família.

Depois de oito anos na formação do Sporting e de passagens pelo Estrela da Amadora, Real Massamá e Barreirense, acabou por ficar afastado dos relvados devido a lesão. Ao fim de seis meses sem jogar, um empresário, cuja identidade prefere não revelar, convidou-o a ir para a Alemanha, onde existiria um clube interessado em contratá-lo.

“Estive no Wacker Ströbitz [do oitavo escalão alemão], um clube que estava perto das ligas profissionais, era um clube amador mas ia subir de divisão. Prometia um ordenado de 1700€ com casa paga. Cheguei lá e só recebi uma vez – deram-me 200€. Foi a pior coisa da minha vida”.

As chuteiras de Ronaldo que podem mudar uma vida
A passagem pela Alemanha não deixou boas memórias a João

Ao contrário do que tinha sido prometido pelo empresário, a casa era inicialmente dividida com mais cinco brasileiros e havia três pessoas a dormir numa sala. Chegou a mudar de casa, mas foi levado para um pequeno quarto sem grandes condições.

“Aquilo não era nada do que me tinham prometido. Chegou a um ponto em que eu já não tinha dinheiro nenhum e tive que pedir à minha família para me mandarem o dinheiro da passagem para poder vir embora”, relembra. A aventura alemã durou cerca de um ano e dois meses e pôs um fim ao sonho de se tornar num futebolista profissional.

“Joguei futebol à volta de 16 anos e não consegui vingar. Não por falta de qualidade minha: João Mário, Tiago Elói, Eric Dier ou Ricardo Pereira jogaram comigo e não eram muito superiores a mim, mas tiveram a sorte de atingir o que eu não consegui. Guardo um desgosto muito grande de não ter vingado no futebol e ver a minha família a passar por estes momentos e não ter nada a que recorrer, a não ser a uma coisa de que tanto gosto.”

O regresso a Portugal também não foi feliz. Sem trabalho e com um filho de dez meses – que foi batizado como Cristiano Ronaldo, nome do ídolo – e outro a caminho, João viu-se encurralado. “A mim ninguém me dá trabalho. Ajudo o meu pai nas feiras e ele é que me dá algum dinheiro de vez em quando para eu me sustentar.”

Apesar do valor sentimental e das histórias que estão por detrás das chuteiras do ídolo, João não tem outra alternativa. O sonho que agora alimenta é o de comprar uma casa para viver com a mulher, os filhos e a irmã que sofre de graves problemas de saúde.

O primeiro leilão, cuja base de licitação começava nos 5.000€, acabou por ser cancelado, embora João já tenha lançado um novo, desta vez através do Facebook e com nova base ambiciosa: 20.000€. Neste lote constam apenas as chuteiras, a camisola vai ficar guardada. O leilão termina a 30 de maio.

“As chuteiras são uma coisa mais pessoal dele e a camisola, sinceramente, para estar a desfazer-me de uma coisa de que tanto gosto e não conseguir ajudar a minha família e perder as duas coisas, não vale a pena. Eu sei que as botas são uma coisa muito mais valiosa e que muita gente quer. Assim, pelo menos, guardo a camisola para toda a minha vida.”