Bem-estar

Beber água a mais pode matar. Saiba quando parar

Não é comum, mas a intoxicação por excesso de água acontece, muitas vezes em atletas de alta competição.

Com a chegada dos dias quentes de verão, chega a vontade de treinar, de correr, aproveitar o calor e castigar o corpo até que os músculos comecem a ficar bem esculpidos. As temperaturas altas obrigam a uma hidratação constante, mas será que é possível bebermos água a mais? A intoxicação por excesso de água existe e pode ser fatal.

Em maio de 2018, Johanna Pakenham, de 53 anos, participou na Maratona de Londres. Para combater o calor intenso que se fazia sentir naquele dia – foi a maratona mais quente dos últimos anos na cidade, com os termómetros a rondarem os 23ºC –, bebeu toda a água que achou necessária para manter a performance. Ao todo, consumiu mais de 12 garrafas. Já em casa, sofreu uma convulsão e foi transportada de imediato para o hospital.

Entrou em coma com um estado de hiponatremia diagnosticado, ou seja, um transtorno metabólico causado por uma baixa quantidade de sódio no sangue devido ao consumo excessivo de água. O consumo de água é geralmente recomendado com a referência do limite mínimo diário de dois litros, porque a hidratação é importante, mas o organismo pode sofrer danos com o excesso de água. Com os hábitos de vida saudáveis mais presentes, cada vez mais pessoas têm a garrafa de água à mão, no carro, na rua, no escritório ou em casa.

Do ponto de vista cardiovascular ou metabólico, beber mais água que o recomendado pode tornar-se num problema. Os casos mais conhecidos associados ao excesso de hidratação são de atletas profissionais que excederam consideravelmente o consumo, sofrendo de falência cardiovascular. Quem o explica é Lluís Serra-Majem, diretor da Cadeira Internacional de Estudos Avançados em Hidração da Universidade da Las Palmas, numa entrevista ao “El País”.

Os primeiros casos de deportistas que morreram por excesso de hidratação registaram-se nos anos 1980, em competições de longa duração. O tempo acabava por implicar uma necessidade extra de hidratação. “A hiponatremia associada ao exercício produz um desequilíbrio hidroelectrolítico e um aumento da pressão intracraneal, cefaleias, náuseas, vómitos, confusão mental e, no pior dos casos, pode chegar a provocar convulsões, coma e morte”, refere. Os sintomas foram todos sentidos por Pakenham, que evitou a morte por ter sido transportada de imediato para o hospital.

A “Healthline“, revista dedicada a assuntos de saúde, esclarece que a intoxicação por água ocorre quando “a quantidade de sal e outros eletrólitos do corpo – que auxiliam na regulação da hidratação – se tornam muito diluídos”. A hiponatremia é “uma condição na qual os níveis de sódio (sal) se tornam perigosamente baixos e se os eletrólitos caírem muito rapidamente, pode ser fatal”, porque o nível anormalmente baixo de sódio no sangue põe em causa “a estabilidade da pressão sanguínea” e a boa saúde de alguns órgãos como o coração.

Um estudo da Universidade australiana de Monash demonstrou que cérebro tem um mecanismo de defesa que se ativa quando deteta que ingerimos mais líquidos do que o necessário. A investigação consistiu no registo da atividade cerebral e do esforço que implicava beber água em duas situações distintas: com sede, após a prática de exercício físico e sem sede, depois do consumo de grandes quantidades de água. O estudo publicado na revista “PNAS” conclui que o cérebro possui mecanismos de defesa que se ativam quando ingerimos demasiados líquidos.

Em casos de consumo excessivo, os voluntários da investigação sentiram a sensação de “garganta fechada” e referiram que tinham de triplicar o esforço para engolir. Torna-se num problema quando essa sensação é interpretada como a necessidade de ingerir mais água – e temos de superar um tipo de resistência cerebral.

Os principais casos de hiponatremia foram registados em atletas de alta competição de triatlo – nas competições de maior esforço como o Ironman –, de escalada extrema ou ultramaratonas, em treinos militares ou desportos de equipa, como futebol. Os atletas profissionais que excederam consideravelmente o consumo de água, acabaram por sofrer de falência cardiovascular, segundo outra investigação assinada pela Universidade de Oakland, nos EUA, publicada na “NCBI“, em março de 2017.

De acordo com o estudo, o grande problema é quando não atendemos à sensação de saciedade e continuamos a beber por achamos que precisamos de mais água durante o dia. Outros casos semelhantes ao da atleta britânica aconteceram, mas com um desfecho menos feliz.

Outros casos de hiponatremia

Cynthia Lucero participou na Maratona de Boston, a 15 de abril de 2002. Antes da corrida, a jovem atleta de 28 anos fez questão de se hidratar e continuou a consumir grandes quantidades de Gatorade – uma bebida energética muito popular nos EUA – durante os primeiros 30 quilómetros. Estava bastante forte durante o percurso, mas acabou por desfalecer antes do final da prova. Foi transportada para o hospital em coma. Lucero morreu três dias depois. Os médicos determinaram que a causa da morte se deveu a um inchaço no cérebro causado por hidratação excessiva.

Em janeiro de 2007, Jennifer Strange, de 28 anos, participou num concurso organizado pela estaçã KDND-FM, em Sacramento, EUA, que consistia em beber a maior quantidade de água sem ir à casa de banho. O prémio era uma Nintendo Wii. Os concorrentes receberam garrafas de água de 0,225 litros que deviam beber a cada 15 minutos. A mulher morreu poucas horas depois do evento devido a uma intoxicação aguda por água. Strange tinha bebido 7,5 litros de água sem ter eliminado qualquer quantidade através da urina.

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Os primeiros sintomas do excesso de água são dor de cabeça, náuseas, vómitos e confusão mental

Saber quando parar

É difícil detetar quando existe um excesso de água no corpo, embora se verifiquem alguns sintomas que permitem perceber se a dose ingerida foi exagerada. Tal como refere o estudo da Universidade de Monash, os sintomas são muitas vezes dor de cabeça, náuseas, vómitos, confusão mental e convulsões. Esta última condição deve-se ao inchaço no cérebro que pode ser fatal.

O Ministério da Saúde brasileiro explica, através do seu “Guia Alimentar da População Brasileira”, a quantidade de líquido que uma pessoa deve consumir diariamente “é variável, pois depende de alguns fatores, como a idade e o peso, a atividade física que ela realiza, o clima e a temperatura do ambiente onde ela vive”. A “BBC” cita esse mesmo guia e explica que, em relação à quantidade de água que devemos ingerir, a recomendação é: “a quantidade que o organismo pedir”.

Para um melhor controlo da água ingerida, além de ter atenção aos sinais que o corpo dá – o sono, a sede, o suor ou garganta e lábios secos –, é importante olhar para a cor da urina e perceber se o corpo está ou não hidratado. Segundo a publicação, quando o líquido expelido é quase transparente, é sinal de que se está num bom nível de hidratação. Quando a cor da urina fica entre o amarelo e o castanho é sinal de o corpo precisa de ser hidratado e, no caso de tons mais escuros, de que existe algum problema de saúde como uma infeção urinária.