Barba e camisa

Afinal, os desodorizantes e os anti-transpirantes fazem mal?

Entre os mitos e a evolução da ciência, nem sempre é fácil saber o que fazer ou que produtos usar. Uma especialista esclarece.

É um debate que se recende à chegada do tempo mais quente: usar desodorizante é quase obrigatório, só que além das manchas chatas que provocam na roupa, há sempre quem lhes aponte mil e um malefícios. Será que eles fazem mesmo mal à saúde? De certeza que já ouviu ou leu todas as teorias dezenas de vezes. E entre tantas teorias das quais se tem falado ao longo dos anos, afinal, qual é a conclusão? Devemos usar desodorizante em vez de anti-transpirante? Há riscos para a saúde? O que devemos fazer? Para responder a estas e a outras questões, a PLAYBOY falou com Ana Paula Cunha, dermatologista e docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Antes de mais, convém perceber que, embora sirvam os dois para inibir as grandes quantidades de transpiração e o odor produzido, os desodorizantes focam-se mais na diminuição da concentração das bactérias e do odor por elas produzido, enquanto os anti-transpirantes “inibem a produção de suor”.

A transpiração é produzida pelo corpo para regular a temperatura, mas também há quem transpire sem ter feito nada para a temperatura corporal aumentar. “Essas pessoas têm a hiperhidrose, que é o aumento da secreção das glândulas mesmo sem haver aumento da temperatura”, aponta a especialista, explicando que mesmo que tenham uma produção de odor normal, nessas pessoas pode tornar-se mais intenso, o que pode causar problemas sociais. Nestes casos, será mais aconselhado o uso de anti-transpirantes.

“Nos doentes com hiperhidrose utilizamos com alguma frequência os anti-transpirantes. Os estudos dizem que a utilização deste produto reduz, ao longo do tempo, a secreção nas glândulas – e chega mesmo a provocar a sua destruição. Como consequência dessa ação, a secreção vai sendo cada vez menor, até ao ponto de já não ser sequer preciso usar um anti-transpirante. Por isso, para o doente é muito importante, até a nível social.”

Portanto, a opinião profissional vai no sentido de que não existe, afinal, qualquer problema no uso destes produtos. “São mitos. Os desodorizantes são utilizados por toda a gente, tenham ou não perfume. Mesmo esses podem ser prejudiciais caso façam alergia aos componentes. Sendo que nenhum dos dois [desodorizantes e anti-transpirantes] faz mal à saúde, se a pessoa fizer reação irritativa ou alérgica ao produto, pode dizer-se que são prejudiciais.”

A ideia de que o alumínio ou os seus derivados causam cancro ou doenças degenerativas como alzheimer está completamente ultrapassada. “Hoje em dia os anti-transpirantes são seguros”, defende Ana Paula Cunha. Tudo porque antes de irem para o mercado, estes produtos são testados exaustivamente e os resultados são publicados em diversos estudos. Pelo menos quando falamos daqueles que são vendidos nas farmácias.

Uma vez que a dose utilizada de cada um dos componentes dos produtos é reduzida, a dermatologista acredita que não existe qualquer problema para a saúde. A única coisa a que deve estar atento é à reação da pele, que pode ser alérgica a determinado composto.

“As pessoas tanto fazem alergia aos desodorizantes e anti-transpirantes como farão a outros produtos de higiene diária como hidratação ou de aplicação cosmética como os perfumes”.

Assim, as questões com as quais deve preocupar-se dizem respeito à sua pele em específico e não exatamente aos problemas que possam vir dos produtos. À partida, todas as pessoas poderão usar desodorizante, reservando-se o anti-transpirante para quem transpira mais. De qualquer forma, “nos doentes com pele atópia e pele seca, os dois podem ter reações cutâneas, as contraindicações têm que ser ajustadas doente a doente”.

A função e o nome do produto em si tem causado várias polémicas ao longo dos anos, mas não é caso único. Os parabenos, por exemplo, têm sido recorrentemente apontados como elementos prejudiciais, uma ideia contraposta por Ana Paula Cunha: “No caso dos parabenos, que são um conservante, ou a pessoa faz alergia ou então não tem reação de maior em termos de dia a dia, é uma questão totalmente ultrapassada”.

Se por acaso costuma comprar o desodorizante no supermercado, talvez seja melhor passar a comprá-lo na farmácia. É que embora todos os produtos sejam obrigados pela União Europeia a listar no rótulo todos os ingredientes, os que são vendidos nas grandes superfícies carecem de estudos científicos credíveis suficientes para que os dermatologistas garantam total confiança no seu uso. “Como não há estudos suficientes, nos de supermercado não nos podemos pronunciar com tanta segurança como nos de farmácia, em que os estudos saem antes do produto ser comercializado e são rigorosos”, explica a especialista.

Resumindo: pode usar desodorizante no dia a dia ou anti-transpirante, se realmente achar que tem um odor muito forte e transpira mais do que o normal. Ambos são produtos seguros. “Tirando os riscos das dermatites de contacto, todas as outras ideias de doenças associadas como cancro estão completamente ultrapassadas.”