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Tortura e abandono. Os galgos continuam a morrer em nome do desporto

Números divulgados no Reino Unido apontam para quase mil mortes só em 2018. Em Portugal, o PAN quer avançar com a proibição das corridas.

O número impressiona. De acordo com a entidade que regula as corridas de galgos no Reino Unido, quase mil cães morreram ou foram mortos só em 2018. A revelação reacendeu a discussão e os pedidos de proibição do desporto no país dispararam. Segundo o diário britânico “The Guardian”, os números divulgados pela Greyhound Board of Great Britain têm como objetivo dar início a uma transformação do desporto, algo que as associações que defendem os direitos dos animais dizem ser impossível.

Uma das razões prende-se com os perigos que as próprias pistas de corrida apresentam para os galgos e que invariavelmente resultam em lesões que impedem a sua adoção após a reforma. Muitos dos quase mil cães foram abatidos devido “aos custos elevados dos tratamentos médicos”, mas também ao facto da falta de utilidade dos animais para os treinadores e competidores.

Em 2018, mais de 200 foram abatidos nas pistas, outros são vítimas de morte súbita. Mortes que a GBGB considera “evitáveis e desnecessárias”.

“A verdade é que centenas de cães registados como reformados pela GBGB continuam num ambiente comercial, confinados aos canis dos treinadores que continuam a não cumprir com as especificações exigidas, usados para procriação e regularmente forçados a doar sangue ou simplesmente a aguardarem adoção. Outras centenas são vendidos ou dados para criação, para correrem em pistas estrangeiras ou usados para pesquisa e dissecção”, explica ao “The Guardian” Trudy Baker, uma organização não-governamental que luta contra a exploração dos galgos.

A luta contra as corridas de galgos é também uma das lutas da PETA, a organização global não-governamental que luta pelo tratamento ético dos animais. “A indústria das corridas de galgos trata os cães como máquinas. Fora os minutos que passam na pista durante a corrida, passam quase 23 horas do dia confinados a uma jaula ou a um canil”.

Começam a correr aos 18 meses e muitos nunca chegam à idade da reforma, entre os 4 e 5 anos de idade. Além das lesões graves que sofrem de forma regular, a PETA cita os números divulgados pela GREY2K USA, que tem nos seus mais de 15 mil lesões registadas entre 2008 e 2018, de pernas e colunas partidas a eletrocuções.

Ainda assim, este é um desporto que alimenta muitas casas de apostas virtuais, onde é possível apostar, de forma legal, em corridas realizadas um pouco por todo o mundo, especialmente no Reino Unido e na Irlanda, mas também na África do Sul, Austrália ou EUA.

As corridas de galgos em Portugal

Em 2016, uma reportagem da “Visão” denunciava o fenómeno crescente, mas também os casos de abusos. De outros países chegavam as técnicas cruéis de treino, as coleiras que dão choques aos mais lentos, os casos de doping e as inevitáveis lesões que atormentam os galgos de competição – e que os condenam a uma reforma precoce e, como consequência, ao abandono e muitas vezes à morte. Por cá, os cães que competem, aos dois anos de idade “já se encontram de tal forma desgastados que são aposentados”, revela a reportagem.

Mais recentemente, o jornal “Público” denunciava também o destino de muitos destes cães atletas, habitualmente abandonados e deixados à sua sorte, quase todos com sequelas físicas e psicológicas. Assustadiços, cabisbaixos e recheados de cicatrizes por causa das noras metálicas usadas para treinar e que os forçam a correr em círculos, explicava ao diário Cristina Gonçalo, fundadora da Katefriends, instituição que tenta combater o abandono dos galgos em Portugal.

A proibição

No início de 2019, o deputado André Silva, do PAN, entregou na Assembleia da República um projeto lei que visava proibir as corridas em território nacional, acrescida de multas e potenciais penas de prisão para os promotores. Por cá estão identificadas seis pistas, todas elas amadoras, onde são promovidas estas corridas. Existe um campeonato nacional e são já mais de 20 os criadores de galgos para corridas.

O projeto surge também no seguimento de uma petição, também ela iniciada pelo PAN em 2017, que conta com 6.499 subscritores. “Sendo criados com o único propósito de correr e vencer, muitos cães jovens e saudáveis são descartados e mortos. Os cães que vão para as pistas enfrentam um duro programa de treino e, durante os treinos e as corridas, sofrem riscos significativos de lesões, como fraturas de pernas ou traumatismos cranianos. Alguns chegam a morrer de ataque cardíaco devido ao intenso desgaste físico. Os danos físicos são muitas vezes considerados ‘inviáveis financeiramente’ para serem tratados e o treinador – que se diz ‘proprietário’ – opta por matar o cão”, pode ler-se no texto da petição.