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Está por todo o lado e é um dos piores plásticos. Felizmente, há uma solução

É quase impossível de reciclar e constitui um risco para a saúde e o meio ambiente.

Olhe bem à sua volta e repare em todas as embalagens de plástico que usa diariamente. Agora foque-se nas pretas. Esse é um dos piores tipos de plástico, simplesmente porque ninguém sabe o que fazer dele. E não vale a pena dizer que o põe sempre na reciclagem: além dos problemas comuns a todo o tipo de plásticos, o de cor negra tem a dificuldade acrescida de ser quase impossível de reciclar.

Está um pouco por todo o lado, das travessas de sushi às caixas de DVD ou mesmo nas tampas de copos de café de take away. Pior: é um dos materiais mais usados para embalar refeições prontas, seja carne, fruta e legumes. Tornaram-se populares pela forma atrativa como apresentam os alimentos, até porque a cor escura ajuda a realçar os produtos coloridos. Além disso, é fácil de produzir, já que pode ser feito a partir de uma mistura de restos de outros plásticos.

O primeiro desafio surge logo nas centrais onde os plásticos para reciclagem são processados. Um dos primeiros passos exige que eles sejam separados por tipos e cores. Para isso, são normalmente identificados por sensores que usam uma luz infravermelha para reconhecer as diferentes cores. Só que o plástico preto não é detetado por essas máquinas, isto porque absorve a luz em vez de refleti-la.

Apesar de ser possível reciclá-lo, trata-se de um processo árduo e, acima de tudo, caro, quando comparado com o de outras cores. Na maioria das vezes acaba no lixo de materiais não selecionados que é depois enviado para um aterro, dado que o preço da reciclagem não justifica o esforço necessário para uma triagem adequada. Nos EUA, várias empresas de reciclagem deixaram mesmo de aceitar estes produtos.

O plástico preto representa também um sério problema ambiental e de saúde para os consumidores. Um estudo publicado em 2018 na “Science Direct”, realizado por investigadores da universidade de Plymouth, revela que produtos químicos tóxicos como chumbo e outros metais pesados podem ser encontrados neste tipo de plásticos – o que representa um enorme risco quando reciclados e convertidos em recipientes alimentares.

Apenas uma pequena porção das centenas de tipos de plásticos pode ser reciclada, mas há outras coisas que podemos fazer para reutilizar aqueles que não passam na triagem.

Agora as boas notícias. Nos últimos anos, investigadores têm tentado encontrar uma solução para este problema, e a alternativa pode muito bem estar na transformação do carbono destas embalagens pretas e na sua aplicação nas energias renováveis.

Alvin Orbaek White, docente e investigador na área de engenharia da Universidade de Swansea no Reino Unido, estuda a reciclagem de produtos químicos para criar novos materiais como fios condutores de eletricidade.

“Todos os plásticos são feitos de carbono, hidrogénio e, por vezes, oxigénio. As quantidades e a constituição desses três elementos tornam cada plástico único”, explica White num artigo publicado no “The Conversation”. Como “são químicos muito puros e altamente refinados, podem ser decompostos nesses elementos e então ligados em diferentes arranjos para produzir materiais de alto valor como nanotubos de carbono”.

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O plástico preto pode ser usado para fazer nanotubos de carbono

O investigador explica que os nanotubos de carbono são moléculas minúsculas “com propriedades físicas incríveis”. “Pense num pedaço de arame enrolado num cilindro. É assim que a estrutura de um nanotubo de carbono se parece”. Quando o carbono é apresentado desta forma, “pode conduzir calor e eletricidade”, ou seja, duas formas diferentes de energia, que “são muito importantes para controlar e serem usadas nas quantidades certas, dependendo das necessidades”.

Para a investigação, Alvin Orbaek usou plásticos – em particular o material na sua vertente mais escura, habitualmente usado ​​como embalagem para refeições prontas e outros alimentos nos supermercados, mas não pode ser facilmente reciclados – e retirou-lhes o carbono para construir moléculas de nanotubos utilizando os átomos de carbono.

Os nanotubos são 80 mil vezes mais finos do que um fio de cabelo humano e praticamente tão finos quanto filamentos de ADN. Mas ao serem constituídos por “ligações de carbono-carbono, dá-lhes a força e a dureza equivalente a um diamante”. Por serem tão fortes, são considerados o material ideal para construir, por exemplo, um elevador espacial – um projeto da Universidade de Shizuoka, no Japão, que servirá para transportar materiais e pessoas para o espaço através de um cabo, dispensando os habituais vaivéns espaciais.

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Nanotubos são tão resistentes que poderão ser a solução para um elevador espacial

Atualmente, os nanotubos são usados ​​para fazer películas condutoras em ecrãs sensíveis ao toque e a sua flexibilidade torna-os no material perfeito para aparelhos flexíveis. São também usados ​​para desenvolver tecidos inteligentes que criam energia quando nos movemos e a NASA usa-os para evitar choques elétricos na nave espacial Juno. E até são aplicados na construção das novas antenas 5G.

Embora a equipa de Alvin White também use outros resíduos de carbono para fabricar nanomateriais, o plástico é um problema conhecido e este estudo poderá ser um avanço para ajudar a resolver parte do dramático problema do plástico preto.