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Morreram abraçados à procura de uma vida melhor. A imagem devastadora que está a chocar o mundo

Tentaram cruzar a fronteira e morreram afogados. A foto dos corpos de dois migrantes pôs o mundo a falar novamente sobre a tragédia da migração.

Trocam-se argumentos no Congresso e no Senado. Os democratas atacam Trump. Trump contra-ataca. Entretanto, a crise migratória na fronteira entre o México e os EUA continua a fazer vítimas. A duas últimas, captadas numa imagem que está a chocar o mundo, pode muito bem tornar-se num símbolo que faça parar de vez a retórica política – e obrigue os legisladores e políticos a tentarem resolver o problema.

Os corpos de pai e filha foram encontrados na margem do Rio Grande, ainda parcialmente submersos, depois de uma travessia falhada de cruzar a fronteira numa zona perigosa, na tentativa de escapar ao cada vez mais apertado controlo fronteiriço. O pai foi identificado como sendo Óscar Alberto Martínez Ramirez, 25 anos, proveniente de El Salvador. A filha Valeria, ainda com o braço agarrado ao pescoço do pai e abrigada por baixo da T-shirt, tinha apenas dois anos.

A travessia desesperada foi uma última tentativa de contornar a relutância das autoridades fronteiriças norte-americanas em receber os migrantes para que pudessem fazer o seu pedido de asilo e estatuto de refugiado. Ao fim de dois meses a aguardar por uma resposta, decidiram tentar cruzar a fronteira pelos próprios meios.

De acordo com relatos do jornal mexicano “La Jornada”, Marínez terá conseguido atravessar a margem com a filha, que abandonou para regressar e ir buscar a mulher. Foi nesse momento que Valeria, sozinha, se atirou novamente à água, ao ver o pai afastar-se. Martínez apercebeu-se e tentou voltar atrás, mas acabaram arrastados pela forte corrente do rio.

Morreram abraçados à procura de uma vida melhor. A imagem devastadora que está a chocar o mundo

“Odeio isto”, reagiu Trump, que eventualmente apontou o dedo aos rivais políticos. “Se [os democratas] mudassem as leis isto não aconteceria”, disse em declarações aos repórteres da Casa Branca. Mais tarde, já no Twitter, acrescentou: “Os democratas deviam alterar os vazios legais e as leis de asilo político para que vidas sejam salvas na nossa fronteira do sul. Disseram que não existia qualquer crise na fronteira, que era tudo ‘fabricado’. Agora admitem que eu tinha razão – mas têm que fazer algo sobre isso. Alterem as leis já”.

A fotografia captada a 24 de junho pela jornalista Julia De Luc tem provocado um aceso debate sobre a partilha da imagem gráfica. “As pessoas transformaram-se em números, em estatísticas. As pessoas discutem os imigrantes na ausência da sua humanidade. Por muito triste que possa ser, acredito que temos de mostrar a foto”, revelou à revista “Time” Fernando Garcia, diretor e ativista da Border Network For Human Rights.

A imagem trágica é semelhante ao caso do pequeno rapaz sírio de três anos, Aylan Kurdi, cujo corpo sem vida deu à costa da Turquia em 2015, e que fez explodir o debate sobre a crise da migração ao nível gobal.