Atualidade

Burnout: 96% dos millennials não consegue escapar a um esgotamento

Estudo revela que os desafios do mercado de trabalho e a situação económica que este jovens enfrentam está na origem do problema.

“O meu trabalho é uma das minhas grandes prioridades, e sinto-me constantemente sob pressão para trabalhar muito. Significa que estou sempre ligada – a responder a emails a qualquer hora e trago o portátil para casa à noite” contou Rhiân, de 28 anos, à “BBC”. Sustenta que tem listas de tarefas infinitas e que nunca conclui. “Recentemente, até fiz uma lista de listas e dividi-as em diferentes salas no meu apartamento. Quando acabo por não fazer as coisas que tinha previsto, sinto-me ainda mais sobrecarregada. Acabo por ser menos produtiva do que antes. É um círculo vicioso”. A história é de Rhiân, mas poderia ser de qualquer outra pessoa da sua geração.

A ideia de que a geração millennium está a passar por um tipo de esgotamento específico foi dado a conhecer com mais ênfase por Anne Helen Petersen, repórter de cultura do “BuzzFeed”, em janeiro. A jornalista mostrou como é viver nessa geração e sentir-se em constante ansiedade. Para isso, recolheu o testemunho de várias pessoas. No artigo, incluiu 16. Erynn, de 25 anos, contou a Petersen que sofre de burnout e que tenta fazer o mesmo trabalho que qualquer outra pessoa faz. Sou também escritora, então tento publicar histórias, artigos de reportagem, fazer algum trabalho de edição gratuita para revistas, pagar as contas e ter dois ou três empregos ao mesmo tempo. Mas, sinto que é muito mais difícil conseguir sustentar-me do que outras pessoas mais saudáveis”.

Relata também é não é fácil encontrar um emprego que pague bem o suficiente para conseguir pagar as contas. “Imagine o que é pensar que tem de trabalhar o tempo todo e que o seu corpo luta contra si. Quanto mais tenta, mais sofrimento sente. Essa é a minha vida e é um ciclo infernal”.

Os jovens nascidos entre 1980 e 1996 fazem parte da geração millennium, também chamada geração Y. Estão sempre ligados à tecnologia, mas são descritos como menos consumistas do que os seus pais, evitam endividar-se, preferem a experiência à posse, estudam o mercado, comparam os preços, são ecorresponsáveis, preferem os produtos personalizados ou serviços à medida e optam por trabalhar remotamente, quando podem. O problema é que acabam endividados, porque os salários são baixos, os empregos estão longe das suas expetativas e não têm tempo para descansar.

O seu comportamento e padrão de consumo são temas de discussão em vários meios, seja na psicologia, no marketing ou no mercado de trabalho. Os millennials presenciaram uma das maiores revoluções na história da humanidade: a Internet. Fazem parte da era do instantâneo e do consumo rápido. O impacto das mudanças sociais e culturais moldou uma geração. No entanto, nem sempre é um grupo que se adapta às mudanças da sociedade ou àquilo que achava que esta seria quando abandonaram a universidade.

São também a geração inconformada e, por isso, considerada “mimada, preguiçosa e incapaz de lidar com o ‘adulting’” – palavra usada pelos millennials para definir as tarefas de uma vida autossuficiente – segundo as explicações de Tim, de 27 anos, na edição de outubro da revista “New York” de 2018. As empresas tiveram de se adaptar e começaram a mudar a abordagem e a oferecer serviços à medida, mas esta geração nem sempre se adaptou às expetativas que giram em torno dela. “O esgotamento não é uma aflição temporária: é a condição dos millennials. É a nossa temperatura base. É a nossa música de fundo. É como as coisas são. É a nossa vida”, refere Tim.

Já a terapeuta norte-americana Tess Brigham revelou que a principal dificuldade e preocupação dos millennials é tomar decisões. Num artigo publicado pela “CNBC”, a especialista na geração apontou que o maior problema dos jovens está em fazer escolhas diante de muitas opções. Segundo a autora, o problema é real, principalmente pelo excesso de informação e pressão que existe sobre os jovens das décadas de 1980 e 1990.

Os pais criaram-nos durante uma época de relativa estabilidade económica e política. Assim como nas gerações anteriores, havia uma expectativa de que a próxima teria melhores condições – o que não aconteceu. À medida que os millennials chegaram à metade da vida adulta, acompanharam a crise, a instabilidade profissional e salários baixos, explica ainda o artigo.

Estudo da Yellowbrick

Esta geração fala de um desconforto no quotidiano, devido “a expectativas culturais irrealistas”. Uma investigação global divulgada em junho, pelo centro psiquiátrico Yellowbrick – que se dedica ao estudo de patologias do foro psíquico –, revela que 96% dos millennials sofrem de burnout e 53% destes já faltaram ao trabalho devido à patologia.

millennials
O estudo da Yellowbrick coloca trabalho no topo da tabela

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já incluiu o burnout – esgotamento profissional –, na categoria de doenças profissionais. É uma doença que se caracteriza como uma síndrome resultante de exaustão laboral crónica que não foi corretamente gerida.

Cansaço extremo e falta de energia permanente; depressão, ansiedade ou o progressivo distanciamento das questões laborais e quebra de produtividade são as principais características utilizadas pela OMS para delimitar o conceito.

As situações de stresse ou esgotamento profissional verificam-se, segundo a Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Trabalho, em 50% a 60% do absentismo laboral nas empresas europeias.

No estudo global, que incluiu uma a mostra de cerca de duas mil pessoas, o centro de investigação norte-americano concluiu que 96% dos millennials sofrem com a síndrome da fadiga extrema, da exaustão emocional, do cinismo e da desmotivação. Embora as razões sejam muitas, como preocupações financeiras (46%), tratar da casa (30%), ter tempo para socializar (33%) ou até questões políticas (25%), no topo da tabela estão essencialmente as questões profissionais (72%), devido a um ambiente altamente competitivo e concorrencial no local de trabalho.

Segundo o estudo, os jovens trabalham demasiadas horas e têm de estar sempre disponíveis por telefone ou email – o que faz com que os jovens não tenham tempo para socializar. Como resultado, cerca de 75% das pessoas entre os 23 e os 38 anos dizem-se mentalmente exaustas. Em consequência, mais de metade destes dizem faltar ao trabalho – uma despesa que acaba por sair cara às empresas.

Essa é a principal razão pela qual os millennials estão relutantes em sair da casa dos seus pais, casar ou comprar um carro. Não ganham dinheiro suficiente e trabalham demasiado. A Yellowbrick revela ainda que a incapacidade de fazer pagamentos pode levar a empréstimos pessoais ou dívidas. É um ciclo que leva “a prejuízos emocionais e psicológicos”.

O estudo refere que os sintomas os incapacitam de trabalhar e a ideia de ir para o trabalho causa-lhe mais ansiedade. Se alguns se refugiam no sono ou no exercício físico, a forma de outros lidarem com o problema leva a outros problemas, como a adição ao álcool, drogas ou a séries (Netflix ou HBO) – que por sua vez, levam à privação de sono.

Mais de 60% dos entrevistados disseram que estão a planear ou a considerar fazer uma grande mudança de estilo de vida no próximo ano, para reduzir os sintomas de exaustão e ansiedade.